Família

02/10/2018 09h30

Vida além da bolha

Campeão no ranking mundial, o Facebook comemora mais de dois bilhões de frequentadores por mês. Só no Brasil, são 127 milhões de usuários ativos. A cada novo balanço, o número cresce. No entanto, há quem escolha se manter longe destas estatísticas. O Nosso Bem Estar conversou com pessoas que saíram ou - pasmem! - jamais estiveram nas redes sociais.

Por Nanda Barreto

Acervo Pessoal | Pxhere
Capa para portal

Fora da bolha, a vida é outra: quem saiu garante que a agenda se abriu para atividades prazerosas. Quem não participa, recomenda.

Praça pública na internet, as redes sociais revolucionaram os meios de comunicação e possibilitaram trocas de informações sobre os mais variados assuntos em todos os continentes: de política à culinária, passando por eventos culturais, artes visuais, vendas de móveis usados, ofertas de serviços, vídeos de gatinhos, desabafos pessoais e - claro - toneladas de selfies. Poderíamos até dizer: não há o que não haja nestes ambientes virtuais.

Mesmo com tantos potenciais atrativos, em julho de 2018, a empreendedora do ramo de bicicletas Giuliana Cadorin, 28, deixou as redes sociais no retrovisor da sua magrela. "Uma amiga contou que havia excluído o Instagram, pois ficava rolando a timeline antes de dormir, em vez de ler livros. Já li dezenas de textos sobre o quão prejudicial para o sono e para a produtividade é acessar as redes antes de dormir ou logo que acorda, e muitas pessoas têm esse hábito. Sem falar na série de mitos sobre a ditadura da felicidade, as crises de ansiedade, a insatisfação e até mesmo a depressão que, se as pessoas ainda não desenvolveram com a “vida” por si só, com certeza as redes sociais ajudarão a desenvolver".

Na avaliação de Giuliana, as redes estimulam comportamentos extremistas e superficiais. "Falando a grosso modo, acho que este tipo de conectividade imbecilizou as pessoas. O Facebook provoca um pouco isso, pedindo que você tenha uma reação para cada coisa que surge na timeline. Desta forma, você nem tem tempo para refletir sobre determinado assunto: reflexão e densidade não interessam, apenas julgamentos expressos. Aliás, quanto mais polêmico, melhor, evidentemente".

Poder político

Grande parte das polêmicas nas redes sociais se dão em torno de divergências ideológicas. No segundo semestre de 2018, a disseminação de notícias falsas, as chamadas fake news, levaram o Facebook a excluir páginas de grupos políticos que desrespeitaram as regras da empresa. Sim, vale lembrar que - apesar de ser um lugar para conhecer gente ou conversar com velhos amigos - as redes sociais são, acima de tudo, empresas privadas, que operam de acordo com suas próprias regras. Querendo ou não, cada vez mais estas empresas assumem influência sobre processos políticos e eleitorais no mundo todo. Os efeitos deste poder ainda são imensuráveis. Também cabe destacar que não são raras as vezes em que os direitos humanos são desrespeitados -  o que ainda se impõe como um grande desafio para o sistema de denúncias destas empresas.

Menos intolerância, mais liberdade de expressão

A psicóloga Caroline Stumpf Buaes, 40, entrou para o Facebook em 2008, convidada por amigos que moravam no exterior. Tudo então eram flores: época de reencontrar colegas de infância e rever a vizinhança da sua cidade natal, Passo Fundo. No entanto, a rede se popularizou, vieram as eleições e com elas, os desentendimentos e decepções.

"O Facebook foi tomado por uma onda de ódio muito maléfica para as relações. Eu mesma fui criticada de modo hostil por pessoas próximas ao expressar minhas opiniões políticas. Nunca paguei na mesma moeda, pois tenho como princípio ético não fazer para os outros aquilo que não considero justo e honesto. Comecei a me questionar sobre o sentido de fazer parte de uma rede social na qual a expressão não era tão livre assim", pontua Caroline.

Cansada da intolerância, em 2017, a psicóloga trocou as redes sociais por uma vida que considera mais proveitosa. "Decidi sair das redes sociais basicamente por terem se tornado um espaço que potencializa o ódio entre as pessoas. O excesso de informação, também, não é saudável, especialmente em tempos de tanta fake news. Inúmeras vezes me senti angustiada com o que eu lia, me entristecia ao ver a faceta raivosa de pessoas queridas", conta.

Na sua balança, Caroline trocou horas de angústia e distração ocasional por foco nas metas e desejos pessoais. "Passei a me conectar mais comigo mesma e menos com o que acontece “lá fora”. Continuo a manifestar minhas opiniões e fazer meus movimentos políticos, mas de outras maneiras e em outras redes sociais não virtuais. Precisamos cultivar mais a amorosidade, o acolhimento às diferenças e a solidariedade. E isso eu não estava conseguindo vivenciar na internet", sustenta.

Vida offline

Fora da bolha, a vida é outra: quem saiu garante que a agenda se abriu para atividades prazerosas. Quem não participa, recomenda. Sem nunca ter experimentado o furor das redes sociais - nem o falecido orkut -, a mestra em psicologia social Elaine Pretto, 33, percebe que há muito controle nas relações estabelecidas nestes espaços. "As pessoas exigem uma resposta imediata. Se você postou algo na sua rede e eu sou sua amiga, posso me sentir na obrigação de curtir ou comentar a sua publicação. É um apelo que me parece muito cansativo. Em parte, escolhi não entrar nas redes porque tenho receio de ser capturada por esta lógica. Por outro lado, eu prefiro manter uma certa privacidade".

Como a maioria dos amigos de Elaine está nas redes e compartilha eventos sociais por lá, ela conta que inúmeras vezes ficou de fora. "As pessoas acabavam esquecendo de me convidar. Agora eu já sei disso e peço para o pessoal dar uma olhadinha na agenda cultural do Facebook (risos)." Elaine lembra que o Facebook alheio também já foi útil para evitar que ela caísse numa fria. "Eu estava recém envolvida com uma pessoa e jamais havia me passado pela cabeça olhar o perfil dela no Facebook, até que uma amiga me deu esta ideia. Foi desamor à primeira vista. Pelo que vi, tínhamos posicionamentos muito diferentes".

Adepta do Whatsapp, Elaine também costuma utilizar a internet para buscar informações em sites de notícias, fazer pesquisas acadêmicas e trocar e-mails. "Eu me comunico bastante com meus amigos por mensagens online e percebo que, muitas vezes, gasto um tempo desnecessário nisso. Muitas pessoas me perguntam porque eu "ainda" não entrei nas redes sociais, como se me faltasse alguma coisa. Este "ainda" não existe. Eu não pretendo estar lá. Simples assim".

Vida social ampliada

Há um ano longe do Facebook, única rede que utilizava, Caroline garante que não há nenhuma desvantagem. "Por algum tempo pensei que eu perderia informações sobre eventos, atividades sociais e culturais. Me mantenho informada por meio de amigos e outros meios de comunicação. Voltei a prestar mais atenção em algumas rádios. Provavelmente, eu estou deixando de saber de muitos acontecimentos, mas não sinto falta. Existe, também, um excesso de informação que circula nas redes sociais", sintetiza.

Longe das redes, Giuliana sente que sua vida está “fluindo mais" e se diverte com alguns sintomas da abstinência: "Ficar por fora do que está rolando, dos eventos, das discussões pode ser uma desvantagem. Tenho a impressão de que estou perdendo um pouco da minha cidadania (risos). Não é nada disso, óbvio, mas parece que a gente perde voz, de certa forma. Outro inconveniente é ter que fazer login ou preencher formulários sem o “acesse com sua conta do Facebook” (risos). Também me dei conta de que perdi minhas contas do Pinterest e Spotify por causa disso. Mas, paciência".

Agora, Giuliana planeja voltar a se relacionar de forma mais íntima com seus amigos. "Quero mandar mensagens diretas e específicas para eles e mostrar que sim, penso neles e eles são especiais para mim. Acredito que é importante fazê-los saber disso, em um momento de tanto ódio, desamor e indiferença que estamos vivendo", completa.

 

"Eu comecei a cogitar em sair das redes quando passei a refletir mais sobre a qualidade dos meus relacionamentos. Eu estava, sempre, sem paciência, cansada e esgotada. Sem muita vontade de conversar… Comecei a linkar este meu comportamento com as redes sociais, e fez sentido. Acho que, inicialmente, as redes foram ótimas para “aproximar” as pessoas. Mas ultimamente, sinto que apenas nos afastam. Nossa comunicação com o outro, pós-redes, ficou muito fria e distante. Nós não ligamos mais para nossos amigos e perguntamos como vão as coisas: por que fazer isso se basta assistir a algum storie dele para ver que 1) ele parece bem; 2) ele parece saudável; 3) ele parece feliz; 4) ele parece ter uma vida muito interessante. Porém, tudo isso pode simplesmente não ser real."

            Giuliana Cadorin, 28 anos, sócia da Vila Velô Bicicletaria

 

"Eu vejo as pessoas muito apegadas às redes sociais. O dia de alguém se torna um sucesso se fulano "amou" a foto postada. Ou pode se tornar um fracasso, se sicrano só "curtiu" ou não teve nenhuma reação. Tem gente que se gaba de ter não sei quantos mil amigos no Facebook, mas quantas amizades estamos cultivando no nosso cotidiano, presencialmente? Se estamos com algum problema, com quem realmente poderemos contar? Muitas pessoas me perguntam porque eu "ainda" não entrei nas redes sociais, como se me faltasse alguma coisa. Este "ainda" não existe. Eu não pretendo estar lá. Simples assim."

                  Elaine Pretto, 33 anos, mestra em psicologia social

 

"Os grupos do WhatsApp também já me causaram problemas. Atualmente, eu uso o aplicativo, apenas, para contatos. Não utilizo mais como rede social de troca de mensagens ou discussões. Mantenho poucos e pequenos grupos que existem, basicamente, para marcar encontros, pois é um meio de comunicação eficiente. Saí dos grupos familiares que se mantiveram por algum tempo como um espaço de troca amorosa de fotografias, relatos de encontro entre parentes que moram distantes, participações de aniversário. Porém, também começaram a existir problemas que foram se tornando mais difíceis de lidar. O motivo dos problemas? Não é novidade: quantidade muito grande de mensagens diárias, divergências políticas, piadas e fake news. Hoje me sinto muito mais tranquila, sem tantas notificações anunciando a chegada de mensagens."

Caroline Stumpf Buaes, 40 anos, psicóloga

Vício em rede

Atualmente, a maior parte de nós passa tanto tempo conectado que a compulsão por internet tende a ser naturalizada. De acordo com o Serviço do Ambulatório de Transtornos do Impulso do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo, há oito critérios para identificar se você está viciado em internet. É necessário apresentar pelo menos cinco deles para que seja caracterizada a dependência:

1. Pensar o tempo inteiro em estar conectado;

2. Sentir necessidade de aumentar o tempo de uso para obter o mesmo prazer;

3. Tentar parar de usar a internet e não conseguir;

4. Sentir irritação e ansiedade durante o tempo que não pode entrar na internet;

5. Mudar o humor quando entra em contato com a tecnologia;

6. Perder a noção do tempo que fica conectado e não conseguir sair;

7. Ter o trabalho e as relações familiares e sociais em risco pelo uso excessivo;

8. Mentir para as pessoas sobre o tempo que fica conectado.

 

Para aprofundar a questão, faça o teste on-line: https://www.dependenciadeinternet.com.br/


Nanda Barreto é jornalista e instrutora de yoga

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